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Católico

"Eu sou o caminho, a verdade e a vida" Jo 14,6

Católico

"Eu sou o caminho, a verdade e a vida" Jo 14,6

Foi preciso um vírus para me lembrar de S.Bento?

Fátima Pinheiro, 11.07.20

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Passou um ano que escrevi aqui sobre Bento de Núrsia. É assim, a correria é grande, e eu que tinha planeado escrever aqui, há já mais tempo, sobre o fenómeno do monaquismo, do recuar para avançar. Não nos mostrou o raio deste virus que era importante calar os barulhos,  para ter ouvidos para o que enche a nossa razão?

Quero registar alguns pontos que me têm acompanhado ao longo deste ano, pontos esses que assinalam a actualidade de S.Bento, e a fecundidade da sua opção. Para "start spreading the news", como canta Sinatra, é necessário  deixar-se "pôr" novo, a partir de dentro.

1. Constato que a Europa está doente, como estava no tempo de S.Bento. Vale a pena ver as razões que levaram Paulo VI a dar-lhe esse título de Principal Patrono da Europa, na Carta Apostólica Pacis Nuntius (1964).

2. Sugiro a leitura de "The Benedict option. A Strategy For Christians In A Post-Christian Nation," de Rod Dreher (PRENTICE HALL PRESS, 2018) e ainda uma visita (virtual) ao célebre mosteiro no Monte Cassino, bem como a leitura da Regra de S.Bento, que se difundiu amplamente.

3. Dirigo a mim própria um punhado de perguntas:  Quero ignorar 3.000 anos de Cristianismo? Quero achar que o mundo vai bem, que nada tenho a ver com o "tempo romano" e a queda de impérios? Conheço bem  o fundador da Ordem beneditina?

4. Ler S. Gregório Magno é um must. É a fonte mais importante da vida de Bento, no segundo livro dos seus Diálogos. Não é uma biografia no sentido clássico. De acordo com as ideias do seu tempo, ele quer ilustrar através do exemplo de um homem concreto - precisamente de São Bento - a ascensão às alturas da contemplação, que pode ser alcançada por aqueles que se abandonam a Deus. Então, ele dá-nos um modelo de vida humana como uma subida ao topo da montanha. Quer mostrar que Deus não é uma hipótese distante colocada na origem do mundo, mas está presente na vida do homem, de todo homem. Sem oração, não há experiência de Deus. Sem experiência de Deus, não se pode dizer uma palavra.

Não te leves tão a sério...

Fátima Pinheiro, 10.07.20

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Nasceste sem ter feito nada para isso. Vais morrer um dia, sem que possas controlar as mais felizes ou infelizes nuances da 'final curtain'. Corona virus há muitos, sua palerma! Os teus filhos já têm pernas e asas, vão onde a liberdade deles os leva -  parecida com a que te leva a ti. A vida de um homem na terra é breve: 70, 80 anos...

Não precisas das urgências de estar a par de tudo. Melhor estares a par da vida. À altura do que te acontece, e do que "fazes" com isso. Deixa sossegada a lista de livros obrigatorios que te ordenaste a ler e sublinhar. Ou os filmes, ou os telefonemas, ou os quilos a mais. Tudo...

Não planeies tudo o que vais fazer nas férias. Já sei que planeaste não planear...

O que fizeres hoje fá-lo bem, por dentro, sem pressa. Os ócios e os negócios. Não ataques nem te ponhas na defensiva. Abre todas as janelas, deixa o vento entrar. Respira. Ainda te lembras da última vez que respiraste? 

Tens pouco. Mas pensa mesmo no que precisas para viver. O que é?

Fica apenas com a urgência do que não é urgente. Tem um nome: o importante. Não te preocupes a explicar esse importante. Se é mesmo importante, não o consegues explicar, agarrar, escapa-te como um punhado de areia por entre os dedos. Cada cabeça sua sentença. Sim. Há "importantes". Não é preciso disputar. Vive o teu "importante". Aprecia o dos outros e recolhe deles o que for bom para ti. E diz ao outro. A isso chama-se Amor. O Pe Duarte dizia ontem que o homem só se realiza na doação de si mesmo.

Gasta-te, mas sem "fazer" nada. Não olhe a tua esquerda para o que faz a tua direita.

O dia tem tem tantos segundos! Deixa-os bater no relógio novo da tua casa nova. 

Muitos te dizem : "eu cá vivo um dia de cada vez". Como haveria de ser? Quereriam que tu vivesses 4 ou 5 de cada vez? ou mil? Essa frase é uma grande e enganosa palissada. Antes, vive em pleno cada dia. Plenitude, que palavra. É como a palavra coração.  Trata-o. Ouve-o. Lava-o. Agora, a sério...

Bagão Félix: porque gosto muito de si...

Fátima Pinheiro, 09.07.20

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Surpresa a minhã, o  novo livro de Bagão Félix: "Um dia haverá", já à venda na FNAC. O autor que excusa qualquer apresentação presenteia-nos com esta obra que é um ramalhete de artigos escritos nos últimos tempos, incluindo a era Covid. Dedica-o aos 4 netos e pede à filha que um dia possa contar o que o avô pensava da vida, do mundo, de tudo. Sim, este livro aborda inúmeras questões, que passam pela fé, pelo futebol, pela novas tecnologias. É um livro que não levo para férias porque vou acabar de lê-lo antes. Vale a pena. Não se deitam fora 72 anos de uma vida rica e  poderosa! 

O prefácio é elucidativo: interessou-lhe escrever as perguntas, mais do que as respostas e as certezas. Sempre o moveu a curiosidade, o espanto. Daí o seu interesse pela Botânica: quanto mais se avança mais se tem consciência da grande ignorância que nos habita e nos move a querer conhecer mais e mais. Neste ponto lembro-me da minha professora primária que nos orientava a procurar folhas, secá-las entre as páginas de um livro e esperar que secassem. Aprendiamos muitas coisas, desde os diferentes tipos de recortes, às nervuras. Está a faltar-me vocabulário, mas o mais importante é neste momento a presença desse mundo de verdes, castanhos, amarelos e laranjas a pintar as paredes e o chão desta minha nova sala. Uma chuva de estrelas.

Hoje as novas tecnologias põe-nos longe do cheiro e das mãos sujas de terra. Não que eu não  aproveite este admirável mundo novo. Mas, tal como este avô, não me interessa uma tecnologia que seja um fim em si mesma. Não quero ser escrava da tecnologia.

Como também não me interessa ir  atrás das urgências. O que na vida importa acaba por nunca ser urgente. Por isso Bagão Féliz critica os nossos telejornais, que são longos, não hierarquizam, que é para "vender" mais e melhor. É o alinhamento que está doente ...

O futebol não pode ser a pioridade. Hoje mesmo, na entrevista que deu à Rádio Renascença no Programa "As três da manhã", interrogado sobre uma eventual candidatura à presidência do Benfica, é peremptório : "Agora não." Se fosse noutros tempos...

O que lhe interessa agora é viver no paraíso da família, a mulher, filhos e netos. O que lhe interessa é continuar a espantar-se. Digo eu: continue a escrever , por favor. Ele há por aí cada "livro"! Também eu gosto de me espantar. E gosto muito de quem me ajuda a fazê-lo. Gosto de si.

Acordo com esta declaração de amor: do livro para mim e de mim para os largos horizontes que habitaram este homem que estima a liberdade de sonhar. E deixo uma pergunta deste autor(que é um capítulo do livro): o que é ser velho no meio da pandemia? 

Os católicos não têm mãos a medir!

Fátima Pinheiro, 08.07.20

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Basílica do Carmo (Recife). A imagem de Nossa Senhora do Carmo, doada por Dona Maria I de Portugal foi confeccionada no século XVII com 2,2 metros de altura e 250 quilos, e possui coroa de três quilos de ouro

Daqui a 9 dias é dia de Nossa Senhora do Carmo, começando portanto hoje a Novena a Ela dedicada. O encontro com Jesus, o qual só é mesmo encontro se for feito hoje, e cada dia, ou seja no presente, contem em si janelas e portas e caminhos, um tecido de dobras a desdobrar. Numa palavra, o encontro hoje é um encontro com uma História cheia de pregas, que por sua vez está cheia de histórias. Mas pouco conhecida (s). Muito pouco conhecida (s), pela generalidade das pessoas, intelectuais incluídos. História tão pouco conhecida como pouco conhecido fica esse Jesus que insistimos em reduzir a um símbolo, uma inspiração, uma cruz mais ou menos fashion posta ao peito, um homem igual a outros tantos profetas ou sábios.

A atenção ao passado, diga-se, não significa a desvalorização do presente. Era como se um bébé nascesse dum sei que nada, e caminhasse para outro não sei que nada.  Para conhecermos o presente, é preciso olhar para trás e para a frente. E já agora para os lados.

Da História sei a Promessa que Jesus fez  aos seus 12 amigos que estupefactos ao olhar para CIMA já se começavam a sentir órfãos: Ficarei convosco até ao final dos tempos. E não vos deixarei órfãos, vou para o Pai, mas o Espírito Santo virá sobre vós e vos inspirará. E neste Deus que Se revelou aqui em BAIXO vão três: Pai, Filho e Espírito Santo. Não cabe na cabeça de ninguém.

Esta herança dá trabalho. Quem se encontra ou é encontrado por Jesus, hoje, tem muito que batalhar. E quem é mais culto, de mais cultura precisa. E precisa de uma grande dose de simplicidade.

Quando Jesus me olhou e olha através dos limites, meus e dos que comigo caminham, Ele pede tudo, um sim radical.

Quem vai ligar a Nossa Sra do Carmo? Pouco sei Dela  e dos Carmelitas. Sei vagamente de um escapulário que alguns usam como proteção. Mas no dia em que disse sim, ou seja cada dia, arregaçei, a-regaço as mangas,  aceitando a Aventura.

Hoje é o Carmelo. Sábado é S. Bento. Cada dia são homens e mulheres de todos os cantos do mundo, testemunhas do Evangelho, que  a Igreja recorda como fazendo parte do seu corpo, cuja cabeça é Cristo. São vidas, que fazem parte da Vida.   

E neste ponto a Igreja não podia ser mais pedagógica. Vai ensinando de uma forma discreta mas esplendorosa como tudo foi acontecendo. Eu aceitei e aceito a aventura de viver destas águas revoltas por ondas que desconheço. 

Como? Voltando ao Carmelo, comecei hoje a Novena, leio o que S. João Paulo II diz do Escapulário: "O Escapulário é essencialmente um ‘hábito'. Quem o recebe é agregado ou associado num grau mais ou menos íntimo à Ordem do Carmo,  dedicada ao serviço da Virgem para o bem de toda a Igreja. " Re-cordo a Verónica, agora carmelita em Fátima, com o seu novo nome Irmã Verónica da Cruz, companheira de longa data.

E vou participar no Congresso Internacional sobre a filósofa judia Edith Stein, no próximo dia 12 de Dezembro. Espero receber lá o Escapulário. Foi há alguns aninhos, em Itália, que esta discípula de Husserl, vítima do Holocausto, doutora da igreja e co-padroeira da Europa, me atraiu. Eu que sou de Filosofia, em especial na área da Fenomenologia, de que Husserl é fundador, não podia estar melhor. 

Acabaram-se as arrumações!

Fátima Pinheiro, 07.07.20

 

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Mudar de casa, sem ajuda para por as coisas em ordem, pode ser uma canseira,  e ser  uma tarefa  quase interminável. Só de pensar em mudar, dá logo canseira. Mudei porque não estava bem na antiga casa. E porque esta nova casa quase me caiu ao colo. Mas realmente nada acontece "porque sim". As coisas acontecem e eu digo sim ou não, ou nim. Neste caso foi um feliz sim, e estou radiante. Às vezes temos que arriscar. E curioso é que estando finalmente bem,  nada, mas nada, me faz estar apegada ou presa à casa e às coisas que nela habitam.

Sempre vivi em casas que não eram minhas. Luanda, Washington, Moscovo, e no espaço e tempo de cerca de trinta anos. E sempre disse para mim própria: esta vida diplomática é muito pedagógica. Porquê? Porque experimento que todas estas casas são moradas provisórias. E aprendi mesmo a lição. A ponto de dizer que habito mais uma morada provisória. E verdade que não temos aqui "morada permanente" - oiço no Hino de Completas. Contudo, e paradoxalmente, cada vez sou mais "uma" com este lugar que visto a meu gosto. 

Não sei viver na bagunça e não preciso de muito. O menos é mais. Dou coisas que gosto, vendo outras e sei que se as coisas estão no seu lugar, eu vou mais facilmente ao meu lugar. Graças a Deus.

Agora, é preciso dizer que já vi muito boa gente que vive a vida em arrumações. Eu não quero isso para mim. Sei que podia melhorar aqui ou ali. Mas ir  po aí é correr o risco de não viver, não gozar. Nada, mesmo nada. As casas são  lugares de descanso, mas principalmente trampolins para os felizes passos que me desafiam. Em plenitude e paz, no convívio com esta família cuja História não se limita a expor as suas lombadas nas minhas novas estantes. Uma História que herdei e faço minha num colo que não tem braços suficientes para a agarrar. Por isso peço sempre ajuda.

Eram outros tempos?

Fátima Pinheiro, 04.07.20

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Hoje, festa de Santa Isabel, rainha de Portugal, pergunto: eram mesmo outros tempos? Formosa e segura segue o seu caminho até ao trampolim do convento de Santa Clara, em Coimbra.

Casou com D. Dinis, tinha 12 anos. Levou uma vida a espalhar misericórdia e esteve sempre do seu lado, e quando ele morreu, continuou a rezar pela sua alma. Nunca lhe respondeu com a mesma moeda.

São realmente outros tempos, dirão. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, bem sei. E que todo o mundo é composto de mudança, também sei. Contudo há coisas que não mudam, e é bom que assim seja. Bem sei! Dou sempre o exemplo de Antígona e da lei do coração, que é imutável, distinguindo-se assim das leis positivas, que, estas sim, podem mudar. E lembro-me sempre da decisão  sábia do Rei Salomão, na disputa de duas mães acerca de um menino que ambas diziam ser seu.

Há tantos preconceitos acerca do tempo! Santa Isabel, rogai por nós ( se bem que os santos não se limitem a ajudar-nos, eles foram sim humanos, viveram em plenitude, foram felizes, cada um com uma vida para a qual podemos olhar  e aprender)! Gosto muito dela.

Lembro-me que a "conheci", tinha eu por volta de seis anos. Lembro-me agora mesmo do milagre das rosas, e do que então senti, quando ela mostrou o regaço a D.Dinis. Achei que ela era um espertalhona, e eu quis ser também assim. E achei que era muito bom ser amiga dos pobrezinhos, mesmo às escondidas.

Tivesse eu tido mais filhos e gostaria de uma filha chamada Isabel e um filho chamado José. Mas a Margarida, o Francisco e  a Teresa transbordam-me as medidas. Termino dizendo que um pouco mais de História nos faria muito bem. Hoje li umas coisas acerca de Reis e Rainhas, e de Espanha. Como lembrou há dias um amigo meu a propósito do Covid19 , referindo uma passagem da Bíblia, nada há que entre no homem que seja impuro, só é impuro o que sai do homem. Por isso é que gosto de tudo. Ou para citar um filósofo: aos olhos do homem religioso nada há de profano, tudo é sagrado (Teilhard de Chardin). O importante é a rosa!

Pandemeias

Fátima Pinheiro, 03.07.20

  

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Vivemos sob o manto da Pandemia. Acabamos sempre por partir ou voltar a ela. Até usamos e abusamos da palavra criando outros sentidos que não o literal. * O que quero dizer hoje é que estou farta das meias verdades, não vale a pena jogar às escondias, com esta idade.  Baseio-me em que razões? Lembram-se de quando eramos crianças, a chamada idade dos porquês?

É uma grande praga viver nesta desconfiança. E para quê, como diz um dos nossos livros civilizacionais, se a vida de um homem é breve, anda pelos 70, e com sorte e cuidados, vai aos oitentas? E se decidissemos ser todos felizes? Chamem-me ingénua que eu não me importo.

Uma pessoa  já nem sabe as linhas em que se cose. Esbateu-se a barreira entre bem e mal, entre verdade e mentira, reconheceu, entre outros,  e há uns aninhos, Aldous Huxley. E é assim em todos os sectores da nossa vida, é pandémico.  O que designo de pandemeias. Não me contam a história toda. A semana que está a terminar foi disso um "bom" exemplo. Numa penada, e sem critério:  o Benfica, Fernando Medina, André Ventura, a (agora) préhistórica geringonça, Trump, a femenina dupla alemã, a Tap, a Operação Lex, o olé na fronteira a reunir-nos com nuestros hermanos, eu sei lá, a senhora engenheira Isabel dos Santos, com Sócrates e Salgado a aparecer nos quadradinhos do lado da pantalha. E Putin a querer governar até depos dos seus 90 (curioso que nestas listas o nome António Costa insiste em não aparecer, ao contrário de Marcelo, que está em todas, ou quase todas).

E eu tenho o direito a saber tudo, ou o mais possível. Claro que há a contrapartida: de mim esperam o mesmo.

Vivemos a cultura do meia (s) verdade (s). Conta-se mas  só até certo ponto, o que é, diga-se, muito conveniente para quem vive à custa do universo que criou para fazer vingar os seus interesses. O que torna tudo mais difícil. Por vezes desistimos. Mas voltamos ao ponto de partida. Recomeçamos, ou não. Pode ser que a pandemia nos tenha tirado da pandemeias. Mais uma vez tenho a batata quente. E lembrou-me, mais uma vez, de Sophia. Não podemos calar. E as palavras da poetisa, uma atleta de longo curso, foram a tudo.  

 

Uma pandemia é uma epidemia de doença infecciosa que se espalha entre a população localizada numa grande região geográfica como, por exemplo, um continente, ou mesmo o todo o planeta Terra.

A ecologia começa dentro de mim

Fátima Pinheiro, 02.07.20

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"Há um modo desordenado de conceber a vida e a ação do ser humano": estas palavras são minhas. Sim, retirei-as de um texto do Papa Francisco, mas a partir de agora são também minhas. Para que serve ler se não é para dizer sim ou não ao que não me con-diz? Neste caso con-cordo, quer  dizer,  o que se diz leva o meu coração (cor) ao do outro (con). A ecologia, uma das meninas dos olhos deste tempo, é uma posição que assume versões por vezes contraditórias. Neste caso as minhas palavras  co-incidem com as de Francisco, num documento por ele escrito e proposto para este ano para ser aprofundado, a Carta Encíclica Laudato Si. Sobre o cuidado da casa comum. (LS)Tem sido para mim uma boa companhia, isto num momento particular da História, no qual a política tem sido convocada a ser feita tendo em conta a dignidade da pessoa humana. Triste é ver cabeças pensantes, a encher as praças e os media a dizer que sim, mas na prática a espezinhar seres inocentes. Mas porque é que vão para a política? Há tanto campo abandonado...

Por outro lado a ecologia veio para ficar, e todos, nas suas fomes de poder, sabem que dá votos. E fazendo bem ao planeta! Agora, nem tudo vale o mesmo. Voltando às minhas palavras iniciais (LS, nº101), é com toda a convição que afirmo conheçer formas ecológicas desordenadas. Sâo as que não incluem claramente as dimensões humanas e socias (cfr.LS nº137). São as que pertencem à família do antropocentrismo moderno (cfr.LS, nºs 115 e ss). São as ecologias dos umbigos, cegas ao olhar dos que são descartados em nome do ambiente. São as ecologias narcísicas, preguiçosas e pessimistas (onde é que li isto?), inimigas do amor. 

Sem uma com-paixão por aquele que comigo caminha, não iremos longe. Perto ou longe - com ou sem máscara - para onde vamos? O caminho faz-se caminhando, diz o poeta, mas não é à balda. É andando de forma integral, de mãos dadas com a vida. É cuidar do teu quadrado como se o meu quadrado. 

Laudato Si quer dizer Louvado Sejas, diz o Papa referindo-se a Deus. Todo o texto está carregado de citações que remetem para a identidade de Deus.  Como posso apreciar e dizer que Francisco é uma referência obrigatória se não leio o que ele testemunha? A superficialidade que as palavras muitas vezes carregam, tem consequências. Eu sou uma carochinha, sem caldeirão, sem João Ratão. Limpo a minha casa, para estar disponível à entrada do imprevisto , que vem sem avisar. Quando O encontro digo: É mesmo isto! Este cuidar da casa que sou, faço-o em todo o lado, e  apenas exige que eu prescinda do lixo que tenho dentro. Isto é para ontem, mas sigo com a alegria de ir a tempo e caminhar num mood de pisar o chão, sabendo os pés que tenho. Não me interessa ir como "Maria vai com as outras". Sou um junco pensante,  para usar as palavras de outro filósofo.

 

Todos falam disto, que pouca vergonha!

Fátima Pinheiro, 01.07.20

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Parte do meu título de hoje é inspirada  num programa da televisão francesa tout le monde en parle, de que gosto muito. Todos falam mas são muitos os que se limitam a entreter-nos, a preencher-nos o tempo, sem consegui matar o vazio  que a crise nos ofereceu. E afirmo isto utilisando propositadamente uma das teses de um livro que acabo de ler. Rui Ramos, João Luís César das Neves e o autor do livro apresentaram-no a semana passada, por video  conferência O despertar do humano. Reflexões de um tempo vertiginoso, de Julián Carrón.   

Carron, aponta uma experiência com a qual me identifico. O teólogo espanhol, nas huellas de Luigi Giussani , caracteriza o humano. Como sei? Sei porque lê-lo é ler-me. Daí que já parti para o outro livro do mesmo autor: O brilho dos olhos. O que nos arranca do nada? Será publicado em breve em Portugal mas já tem excertos da edição italiana acessiveis aqui.

Tanta pressa, dirão. Depressa e bem, não há quem. Mas eu quero muito estas ajudas que me levam a mim mesmo. De Espanha tenho vento e casamento. Carrón é um biblista espanhol de primeira, que vale a vida conhecer, ler, reler. Discreto, fino sentido de humor, de uma humildade brilhante, preenche os seus textos de referências obrigatórias. É um homem!

Neste caso são muitos os que com ele põem o dedo na ferida. O vazio que nos enche a alma  e agora saiu da bolha com que se defendia e se mascarava não se limita a um regiano "não vou por aí". Pelo contrário, estes livros apontam para Deus. O Deus de  quem  Santo Agostinho tinha a razoável certeza ser o X , o Tal que pode matar a inquietude que nos define,  e nos inquieta mais e mais depois de encontrado. Encontrar é continuar a procurar; é como a sede, que volta sempre, como volta a água que a sacia. No programa francês que acima linko, Gérard Dépardieu explica. Não se pense que o homem religioso é um homem "resolvido", isto é, um homem que estagna porque encontrou a resposta às perguntas que esta crise viral fez saltar...

O homem religioso é, sim, um homem em plenitude, como eu aqui ontem atestei. Em plenitude sim, porque não se limita a sentir mas deixa  que a sua racionalidade se alargue ao ponto de passar a conviver com o Absoluto . Num tempo em que a religiosidade é vista como um sentimento de trazer por casa, que se vive longe das praças, afirmá-la assim, com faz Carrón,  é uma pouca vergonha. É, como faz o Papa, trazê-la na cara, percorrendo ruas e ruelas. Eu? também. Máscara só a do Ministério das saúdes.

Todos falam disto, que pouca vergonha!

Fátima Pinheiro, 30.06.20

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Parte do meu título de hoje é inspirada  num programa da televisão francesa tout le monde en parle, de que gosto muito. Todos falam mas são muitos os que se limitam a entreter-nos, a preencher-nos o tempo, sem consegui matar o vazio  que a crise nos ofereceu. E afirmo isto utilisando propositadamente uma das teses de um livro que acabo de ler. Rui Ramos, João Luís César das Neves e o autor do livro apresentaram-no a semana passada, por video  conferência O despertar do humano. Reflexões de um tempo vertiginoso, de Julián Carrón.   

Carron, aponta uma experiência com a qual me identifico. O teólogo espanhol, nas huellas de Luigi Giussani , caracteriza o humano. Como sei? Sei porque lê-lo é ler-me. Daí que já parti para o outro livro do mesmo autor: O brilho dos olhos. O que nos arranca do nada? Será publicado em breve em Portugal mas já tem excertos da edição italiana acessiveis aqui.

Tanta pressa, dirão. Depressa e bem, não há quem. Mas eu quero muito estas ajudas que me levam a mim mesmo. De Espanha tenho vento e casamento. Carrón é um biblista espanhol de primeira, que vale a vida conhecer, ler, reler. Discreto, fino sentido de humor, de uma humildade brilhante, preenche os seus textos de referências obrigatórias. É um homem!

Neste caso são muitos os que com ele põem o dedo na ferida. O vazio que nos enche a alma  e agora saiu da bolha com que se defendia e se mascarava não se limita a um regiano "não vou por aí". Pelo contrário, estes livros apontam para Deus. O Deus de  quem  Santo Agostinho tinha a razoável certeza ser o X , o Tal que pode matar a inquietude que nos define,  e nos inquieta mais e mais depois de encontrado. Encontrar é continuar a procurar; é como a sede, que volta sempre, como volta a água que a sacia. No programa francês que acima linko, Gérard Dépardieu explica. Não se pense que o homem religioso é um homem "resolvido", isto é, um homem que estagna porque encontrou a resposta às perguntas que esta crise viral fez saltar...

O homem religioso é, sim, um homem em plenitude, como eu aqui ontem atestei. Em plenitude sim, porque não se limita a sentir mas deixa  que a sua racionalidade se alargue ao ponto de passar a conviver com o Absoluto . Num tempo em que a religiosidade é vista como um sentimento de trazer por casa, que se vive longe das praças, afirmá-la assim, com faz Carrón,  é uma pouca vergonha. É, como faz o Papa, trazê-la na cara, percorrendo ruas e ruelas. Eu? também. Máscara só a do Ministério das saúdes.